Desabafo
“Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali”.
Clarice Lispector
Após um período de recesso de quatro anos, surgiu para mim uma experiência sentimental nada comum. Me encantei por um homem complicado, inconstante, irritante, contraditório, que distorce tudo o que digo e que é cheio de atitudes brutas. Aí você me pergunta: o que você viu nele, então? Muitas coisas.
Eu vi um homem que gosta tanto de viver a liberdade que se esquece que não está só no mundo, que tudo está conectado e que uma simples escolha individual interfere no todo.
Eu vi um homem que corre muito numa tentativa de voar, por que não agüenta caminhar por muito tempo em uma terra na qual todos o julgam, pela incompetência de não enxergá-lo como ele realmente é. É na velocidade, correndo e não andando por essa terra, que ele encontra outros que compartilham das mesmas sensações, mesmas idéias, e consegue criar algum laço. Vez ou outra ele encontra alguém que não o julgue, enquanto caminha. Mas é raro.
Eu vi um homem que, apesar da aparência bruta (lembro que no início, ainda quando trabalhava na mesma empresa que ele ainda trabalha, eu me intimidava com sua presença, tanto que muitas vezes nem conseguia falar “boa tarde”, só balançava a cabeça...rsrsrs), possui uma ternura que nunca vi em ninguém antes, escondida por debaixo de músculos e de uma cara séria, mas que está lá e que você só consegue perceber quando olha bem no fundo dos seus olhos, em um momento de distração.
Eu vi um homem de mil frases, capaz de aplicar uma em qualquer situação de maneira sábia, ou de se enrolar todo com elas, tentando explicar ou justificar algo.
Eu vi um homem de mil máscaras, capaz de mentir e fingir com maestria e de, por outro lado, ser tão sincero que chega a cortar o vento.
Eu vi um homem que discute filosofia – existencialismo alemão – pra valer, mas quando questionado sobre a bagunça em seu quarto, parece um menino tentando se explicar.
Eu vi um homem que se entrega e que, no instante seguinte, quase se arrepende de tê-lo feito.
Eu vi tantas coisas neste homem...A questão é se esse homem que eu vi realmente existe ou se é uma grande mentira. Sei que tudo isso que vi é concreto, real. Mas, não sei se o homem que me passou tudo isso é real ou é um personagem criado por ele mesmo. Em outras palavras, será que lidei com uma máscara ou com o homem, o tempo todo? Já não sei dizer.
Em dois anos muitas coisas mudam e outras permanecem inalteradas. Um dia eu vi este homem com respeito, carinho, admiração e confiança. Hoje, meu coração bate cansado. E cansada me sinto.
Tenho medo porque sinto que coisas se quebram dentro de mim. E, sinceramente, não sei quais serão as conseqüências para mim mesma. Mas, talvez, seja exatamente isso que deva acontecer. Preciso me quebrar por dentro, renascer. O tempo é amigo das grandes causas e minha grande causa, neste momento, é curar meu coração cansado.
O primeiro passo talvez seja este. Escrever para aliviar a alma. Desabafar homeopaticamente, à medida em que meus sentimentos se tornam compreensíveis por mim mesma. :)
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